quarta-feira, 7 de abril de 2010

MÃE

MÃE
[Mário Quintana]




Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito:

Também o Céu tem três letras...

E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,

Todo o bem que se disse

Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,

Bem sabem os lábios meus

Que és do tamanho do Céu

E apenas menor que Deus!


[Mário Quintana]

terça-feira, 6 de abril de 2010

PARA MEU CORAÇÃO

PARA MEU CORAÇÃO
[Pablo Neruda]



Para meu coração teu peito basta,

para que sejas livre, minhas asas.

De minha boca chegará até o céu

o que era adormecido na tua alma.

Mora em ti a ilusão de cada dia

e chegas como o aljôfar às corolas.

Escavas o horizonte com tua ausência,

eternamente em fuga como as ondas.

Eu disse que cantavas entre vento

como os pinheiros cantam, e os mastros

Tu és como eles alta e taciturna.

Tens a pronta tristeza de uma viagem.

Acolhedora como um caminho antigo,

povoam-te ecos e vozes nostálgicas.

Despertei e por vezes emigram e fogem

pássaros que dormiam em tua alma.


[Pablo Neruda]

segunda-feira, 5 de abril de 2010

OU ISTO OU AQUILO

OU ISTO OU AQUILO
[Cecília Meireles]


Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.


[Cecília Meireles]

domingo, 4 de abril de 2010

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
[Mário Quintana]




Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E a minha poesia é um vício triste,

Desesperado e solitário

Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,

Com o teu passo leve,

Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender

nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos.


[Mário Quintana]

sábado, 3 de abril de 2010

O VENTO NA ILHA

O VENTO NA ILHA
[Pablo Neruda]


Vento é um cavalo:

ouve como ele corre

pelo mar, pelo céu.

Quer me levar: escuta

como ele corre o mundo

para levar-me longe.

Esconde-me em teus braços

por esta noite erma,

enquanto a chuva rompe

contra o mar e a terra

sua boca inumerável.

Escuta como o vento

me chama galopando

para levar-me longe.

Como tua fronte na minha,

tua boca em minha boca,

atados nossos corpos

ao amor que nos queima,

deixa que o vento passe

sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra

coroado de espuma,

que me chame e me busque

galopando na sombra,

enquanto eu, protegido

sob teus grandes olhos,

por esta noite só

descansarei, meu amor.


[Pablo Neruda]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BILHETE

BILHETE
[Mário Quintana]


Se tu me amas,

ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,

deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,

.....tem de ser bem devagarinho,

.....amada,

.....que a vida é breve,

.....e o amor

.....mais breve ainda.

[Mário Quintana]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CAI CHUVA DO CÉU CINZENTO

CAI CHUVA DO CÉU CINZENTO
[Fernando Pessoa]


Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não.

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração


[Fernando Pessoa]

quarta-feira, 31 de março de 2010

VELHAS ÁRVORES

VELHAS ÁRVORES
[Olavo Bilac]




Olha estas velhas árvores, mais belas

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas

Vivem, livres da fome e de fadigas:

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!

Envelheçamos rindo. Envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

[Olavo Bilac]

terça-feira, 30 de março de 2010

MOTIVO

MOTIVO
[Cecília Meireles]



Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E sei que um dia estarei mudo:

- mais nada.

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 29 de março de 2010

NOS BOSQUES, PERDIDO

NOS BOSQUES, PERDIDO
[Pablo Neruda]


Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro

E aos labios, sedento, levante seu sussurro:

era talvez a voz da chuva chorando,

um sino quebrado ou um coração partido.

Algo que de tão longe me parecia

oculto gravemente, coberto pela terra,

um gruto ensurdecido por imensos outonos,

pela entreaberta e úmida treva das folhas.

Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,

o ramo de avelã cantou sob minha boca

E seu odor errante subiu para o meu entendimento

como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes

que abandonei, a terra perdida com minha infância,

e parei ferido pelo aroma errante.

Não o quero, amada.

Para que nada nos prenda

para que não nos una nada.

Nem a palavra que perfumou tua boca

nem o que não disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos

nem teus soluços junto à janela...


[Pablo Neruda]

domingo, 28 de março de 2010

SONETO DO AMOR TOTAL

SONETO DO AMOR TOTAL
[Vinícius de Morais]


Amo-te tanto meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.


[Vinícius de Morais]

sábado, 27 de março de 2010

MEU SONHO

MEU SONHO
[Cecília Meireles]




Parei as águas do meu sonho

para teu rosto se mirar.

Mas só a sombra dos meus olhos

ficou por cima, a procurar...

Os pássaros da madrugada

não têm coragem de cantar,

vendo o meu sonho interminável

e a esperança do meu olhar.

Procurei-te em vão pela terra,

perto do céu, por sobre o mar.

Se não chegas nem pelo sonho,

por que insisto em te imaginar?

Quando vierem fechar meus olhos,

talvez não se deixem fechar.

Talvez pensem que o tempo volta,

e que vens, se o tempo voltar.


[Cecília Meireles]

sexta-feira, 26 de março de 2010

QUERER

QUERER
[Pablo Neruda]

Não te quero senão porque te quero

E de querer-te a não querer-te chego

E de esperar-te quando não te espero

Passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,

Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,

E a medida de meu amor viageiro

É não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro

Seu raio cruel, meu coração inteiro,

Roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro

E morrerei de amor porque te quero,

Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.


[Pablo Neruda]

quinta-feira, 25 de março de 2010

ANTES DE AMAR-TE...

ANTES DE AMAR-TE...
[Pablo Neruda]


Antes de amar-te, amor, nada era meu

Vacilei pelas ruas e as coisas:

Nada contava nem tinha nome:

O mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,

Túneis habitados pela lua,

Hangares cruéis que se despediam,

Perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,

Caído, abandonado e decaído,

Tudo era inalienavelmente alheio,

Tudo era dos outros e de ninguém,

Até que tua beleza e tua pobreza

De dádivas encheram o outono.


[Pablo Neruda]

quarta-feira, 24 de março de 2010

ANGELA ADONICA

ANGELA ADONICA
[Pablo Neruda]


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura

como se na margem de um oceano branco,

como se no centro de uma ardente estrela

de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde

a luz caía como uma água seca,

em transparentes e profundos círculos

de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas

ardía em duas regiões levantado,

e num duplo rio chegava a seus pés,

grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas

as diurnas longitudes do seu corpo

enchendo-o de frutas extendidas

e oculto fogo.


[Pablo Neruda]

terça-feira, 23 de março de 2010

WALKING AROUND

WALKING AROUND
[Pablo Neruda]


Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,

do meu cabelo e até da minha sombra.

Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso

assustar um notário com um lírio cortado

ou matar uma freira com um soco na orelha.

Seria belo

ir pelas ruas com uma faca verde

e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,

com fúria e esquecimento,

passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,

e pátios onde há roupa pendurada num arame:

cuecas, toalhas e camisas que choram

lentas lágrimas sórdidas.


[Pablo Neruda]

segunda-feira, 22 de março de 2010

AOS TEUS PÉS

AOS TEUS PÉS
[Pablo Neruda]

Quando não te posso contemplar

Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,

Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam

E que teu doce peso

Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,

A duplicada purpura

Dos teus mamilos,

A caixa dos teus olhos

Que há pouco levantaram vôo,

A larga boca de fruta,

Tua rubra cabeleira,

Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés

É só porque andaram

Sobre a terra e sobre

O vento e sobre a água,

Até me encontrarem.


[Pablo Neruda]

domingo, 21 de março de 2010

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS
[Vinícius de Morais]


Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só pra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar.


[Vinícius de Morais]

sábado, 20 de março de 2010

AUSÊNCIA

AUSÊNCIA
[Vinícius de Morais]


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...

No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...

E em minha voz, a tua voz...

Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...

Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...

Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...

porque eu fui o grande íntimo da noite...

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...

Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,

serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.


[Vinícius de Morais]

sexta-feira, 19 de março de 2010

AI, QUEM ME DERA

AI, QUEM ME DERA
[Vinícius de Morais]


Ai, quem me dera terminasse a espera

Retornasse o canto simples e sem fim

E ouvindo o canto se chorasse tanto

Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai, quem me dera ver morrer a fera

Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.

Ai, quem me dera uma manhã feliz.

Ai, quem me dera uma estação de amor

Ah, se as pessoas se tornassem boas

E cantassem loas e tivessem paz

E pelas ruas se abraçassem nuas

E duas a duas fossem ser casais

Ai, quem me dera ao som de madrigais

Ver todo mundo para sempre afim

E a liberdade nunca ser demais

E não haver mais solidão ruim

Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais

Dizer que a vida vai ser sempre assim

E, finda a espera, ouvir na primavera

Alguém chamar por mim.


[Vinícius de Morais]

quinta-feira, 18 de março de 2010

SONETO DA FIDELIDADE

SONETO DA FIDELIDADE
[Vinícius de Morais]

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

[Vinícius de Morais]

quarta-feira, 17 de março de 2010

ONDE VOCÊ VÊ

ONDE VOCÊ VÊ
[Fernando Pessoa]

Onde você vê um obstáculo,

alguém vê o término da viagem

e o outro vê uma chance de crescer.

Onde você vê um motivo pra se irritar,

Alguém vê a tragédia total

E o outro vê uma prova para sua paciência.

Onde você vê a morte,

Alguém vê o fim

E o outro vê o começo de uma nova etapa...

Onde você vê a fortuna,

Alguém vê a riqueza material

E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.

Onde você vê a teimosia,

Alguém vê a ignorância,

Um outro compreende as limitações do companheiro,

percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.

E que é inútil querer apressar o passo do outro,

a não ser que ele deseje isso.

Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.

"Porque eu sou do tamanho do que vejo.

E não do tamanho da minha altura."


[Fernando Pessoa]

terça-feira, 16 de março de 2010

O AMOR, QUANDO SE REVELA

O AMOR, QUANDO SE REVELA
[Fernando Pessoa]




O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

[Fernando Pessoa]

segunda-feira, 15 de março de 2010

A UM AUSENTE

. A UM AUSENTE .
[Carlos Drummond]

Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral, a comum aquiescência

de viver e explorar os rumos de obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.

Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.

Que poderias ter feito de mais grave

do que o ato sem continuação, o ato em si,

o ato que não ousamos nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso, voz

modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

porque o fizeste, porque te foste.


[Carlos Drummond]

domingo, 14 de março de 2010

INCONFESSO DESEJO

.INCONFESSO DESEJO.
[Carlos Drummond]

Queria ter coragem


Para falar deste segredo

Queria poder declarar ao mundo

Este amor

Não me falta vontade

Não me falta desejo

Você é minha vontade

Meu maior desejo

Queria poder gritar

Esta loucura saudável

Que é estar em teus braços

Perdido pelos teus beijos

Sentindo-me louco de desejo

Queria recitar versos

Cantar aos quatros ventos

As palavras que brotam

Você é a inspiração

Minha motivação

Queria falar dos sonhos

Dizer os meus secretos desejos

Que é largar tudo

Para viver com você

Este inconfesso desejo


[Carlos Drummond]
 

sábado, 13 de março de 2010

A VERDADE

.A VERDADE.

A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual

a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.

Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

[Carlos Drummond]

sexta-feira, 12 de março de 2010

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

.AS SEM-RAZÕES DO AMOR.
[Carlos Drummond]



Eu te amo porque te amo.


Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

[Carlos Drummond]

quinta-feira, 11 de março de 2010

AUSÊNCIA

.AUSÊNCIA.
[Carlos Drummond]

Por muito tempo achei que a ausência é falta.


E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

[Carlos Drummond]

quarta-feira, 10 de março de 2010

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

.OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO.
[Carlos Drummond]


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.


Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.
 

[Carlos Drummond]

terça-feira, 9 de março de 2010

QUADRILHA

.QUADRILHA.
[Carlos Drummond]

João amava Teresa que amava Raimundo


que amava Maria que amava

Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos,

Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.
 
[Carlos Drummond]

segunda-feira, 8 de março de 2010

PARA SEMPRE

.PARA SEMPRE.
[Carlos Drummond]

Por que Deus permite


que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


[Carlos Drummond]

domingo, 7 de março de 2010

PORQUE

PORQUE
[Carlos Drummond]

Amor meu, minhas penas, meu delírio,


Aonde quer que vás, irá contigo

Meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma,

Sabendo embora ser perdido intento

O de cingir-te forte de tal modo

Que, desde então se misturando as partes,

Resultaria o mais perfeito andrógino

Nunca citado em lendas e cimélios

Amor meu, punhal meu, fera miragem

Consubstanciada em vulto feminino,

Por que não me libertas do teu jugo,

Por que não me convertes em rochedo,

Por que não me eliminas do sistema

Dos humanos prostrados, miseráveis,

Por que preferes doer-me como chaga

E fazer dessa chaga meu prazer?

[Carlos Drummond]

DESEJO

. DESEJO .
[Victor Hugo]


Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.


Desejo, pois, que não seja assim

Mas se for, saiba ser sem se desesperar

Desejo também que tenha amigos

Que mesmo maus e inconseqüentes

Sejam corajosos e fiéis

E que pelo menos em um deles

Você possa confiar sem duvidar


E porque a vida é assim

Desejo ainda que você tenha inimigos

Nem muitos, nem poucos

Mas na medida exata para que

Algumas vezes você se interpele

A respeito de suas próprias certezas.

E que entre eles

Haja pelo menos um que seja justo


Desejo depois, que você seja útil

Mas não insubstituível

E que nos maus momentos

Quando não restar mais nada

Essa utilidade seja suficiente

Para manter você de pé.


Desejo ainda que você seja tolerante

Não com os que erram pouco

Porque isso é fácil

Mas com os que erram muito e irremediavelmente

E que fazendo bom uso dessa tolerância

Você sirva de exemplo aos outros


Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais

E que sendo maduro

Não insista em rejuvenescer

E que sendo velho

Não se dedique ao desespero

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor


Desejo, por sinal, que você seja triste

Não o ano todo, mas apenas um dia

Mas que nesse dia

Descubra que o riso diário é bom

O riso habitual é insosso

E o riso constante é insano.


Desejo que você descubra

Com o máximo de urgência

Acima e a respeito de tudo

Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes

E que estão bem à sua volta

Desejo ainda

Que você afague um gato, alimente um cuco

E ouça o joão-de-barro

Erguer triunfante o seu canto matinal

Porque assim, você se sentirá bem por nada


Desejo também

Que você plante uma semente, por menor que seja

E acompanhe o seu crescimento

Para que você saiba

De quantas muitas vidas é feita uma árvore


Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro

Porque é preciso ser prático

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele na sua frente e diga:

"Isso é meu"

Só para que fique bem claro

Quem é o dono de quem


Desejo também

Que nenhum de seus afetos morra

Por eles e por você

Mas que se morrer

Você possa chorar sem se lamentar

E sofrer sem se culpar


Desejo por fim

Que você sendo homem, tenha uma boa mulher

E que sendo mulher, tenha um bom homem

Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes

E quando estiverem exaustos e sorridentes

Ainda haja amor pra recomeçar


E se tudo isso acontecer

Não tenho mais nada a lhe desejar
 
[Victor Hugo]

sexta-feira, 5 de março de 2010

OS RAIOS E AS SOMBRAS

.OS RAIOS E AS SOMBRAS.
[Victor Hugo]

... "Tão pouco tempo é suficiente para mudar todas as coisas!


Natureza com a fronte serena , como você esquece!

E como vós se feres em suas metamorfoses

Os filhos misteriosos de onde nossos corações são limitados !


... "O limite do caminho, que vive uma jornada sem fim,

Onde antes de me entender ele gostaria de se sentar,

Cansou de golpear , quando a estrada é escura,

As grandes carruagens gémissants que volta da noite.


... "Outros irão passar agora aonde nós passamos.

Nós viemos de lá, outros virão de vir,

e o sonho que esboçará em nossas duas almas

Eles continuarão sem nunca ter fim !


... " Responda , puro vale pequeno, responda, solidão,

Oh Natureza protegida neste deserto tão belo ,

Quando nós dormiremos ambos de qualquer jeito,

Distribuir as mortes pensativas em forma da tumba ;


... "É o que vós seria capaz, sem tristeza e sem pranto ,

Ver nosso sombras flutuantes não trabalharem por nós ,

E ver o ensinamento , num abraço sombrio,

Versos de qualquer origem em lágrimas que soluçam profundamente ?


... " Eh bem! Nos esqueça, casa, jardim , sombra;

Erva, use nossa soleira ! Arbusto , não nos esconda !

Cantem , pássaros! Rios, corram ! Cresçam , folhagens!

Esses que vós esqueceis não os esquecerão.


" Porque vós sois para nós a sombra do mesmo amor,

Vós sóis o oásis daquele que se encontra na senda !

Vós sóis , oh pequeno vale, o descanso supremo ,

Onde nós choramos segurando-nos pelas mãos!


" Todas as paixões mudam com o tempo ,

Umas levam a nos mascarar e o outras nos esfaqueiam,

Como uma multidão cantando na viagem

De quem o grupo diminui atrás da pequena colina.


"... E lá, por esta noite em que nenhuma raio de estrela ,

A alma, em uma dobra escura onde tudo parecem terminar,

Sente qualquer coisa a palpitar debaixo de um véu...

És tu que dorme na sombra, oh sacra lembrança!"

[Victor Hugo]

quinta-feira, 4 de março de 2010

O SEPULCRO DA ROSA

.O SEPULCRO DA ROSA.
[Victor Hugo]

O sepulcro diz à rosa


Que fazes tu flor mimosa

Do orvalho da alva manhã?

Diz a rosa à sepultura:

Que fazes feia negrura

de tanta forma louça?

Negra tumba, segue a rosa

Eu, dessa água preciosa

Faço aroma que é só meu.

Diz-lhe a tumba com afago

De cada corpo que trago

Ressurge um anjo no céu.

[Victor Hugo]

quarta-feira, 3 de março de 2010

O HOMEM E A MULHER

.O HOMEM E A MULHER.
[Victor Hugo]

O homem é a mais elevada das criaturas; a mulher é o mais sublime dos ideais.


Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar.

O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher é o coração.

O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.

A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pelas lágrimas.

A razão convence; as lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios.

O heroísmo enobrece; o martírio sublima.

O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência.

A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.

O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória.

A aspiração da mulher é a virtude extrema.

A glória faz tudo grande.

A virtude faz tudo divino.

O homem é um código; a mulher, um evangelho.

O Código corrige; o evangelho aperfeiçoa.

O homem pensa; a mulher sonha.

Pensar é ter no crânio uma larva.

Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher, um lago.

O oceano tem a pérola que adorna.

O lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa.

A mulher é o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço.

Cantar é conquistar a alma.

O homem é um templo. a mulher é o sacrário.

Ante o templo nos descobrimos. Ante o sacrário nos ajoelhamos.

Enfim, o homem está colocado aonde termina a terra e a mulher onde começa o céu.


[Victor Hugo]

terça-feira, 2 de março de 2010

OS CANTOS DO CREPÚSCULO

.OS CANTOS DO CREPÚSCULO.
[Vitor Hugo]

Desde que eu meu lábio levei ao copo plenamente cheio,

Desde que eu minhas mãos coloquei em minha fronte pálida,

Desde que eu respirei às vezes o sopro suave

De tua alma, perfume de tua sombra enterrada,

Desde que me era dado ouvir um ao outro me chamar

As palavras que se derramam no coração misterioso,

Desde que eu vi chorar , desde que eu vi sorrir

Sua boca em minha boca e seus olhos em meus olhos;

Desde que eu vi brilhar em minha cabeça encantada

Um raio de tua estrela, ai! sempre escondida,

Desde que eu vi desabar nas ondas de minha vida

Uma folha de rosa arrancou os teus dias,

Eu me coloco agora a contar os rápidos anos:

- Passam! Passam sempre! Eu não tenho mais a idade !

Vou partir para que tuas flores desbotem todas;

Eu tenho na alma uma flor que ninguém pode colher!

Suas asas batendo não farão que nada se derrame

Do vaso d’água que bebo e que eu bem enchi

Minha alma não tem mais fogo do que vós possuis em cinzas!

Meu coração não tem mais amor do que vós possuis esquecimento!

[Vitor Hugo]

segunda-feira, 1 de março de 2010

MÃE E FILHO

.MÃE E FILHO.
[Vitor Hugo]


Mãe ! A teu filho muitas vezes dissestes

Que o céu tem anjos e o há

Só alegrias no viver celeste

E que é melhor viver por lá;

Que é um zimbório de pilastras belas,

Tenda de ricas cores;

Jardim de anil e lúcido de estrelas

Que se abrem como flores;

Que é o mundo dos seres invisíveis

Do qual Deus é o autor,

De místico azul, de inexauríveis

Gozos, do eterno amor;

Que é doce lá, num êxtase que encanta,

Sentir que a alma se abrasa,

E viver com Jesus e a Virgem Santa

Numa tão linda casa...

Mas nunca lhe disseste, inconsolável

Mãe, chorosa mulher,

Que ele, o pequeno, te era indispensável,

Que ele te era necessário;

Que pelos filhos, quando são pequenos,

Muito as mães se consomem,

Mas que a mãe com seu filho conta ao menos

Quando for velha, e ele homem.

Nunca disseste que no escuro trilho

Da vida, Deus, que é pai

Quer que o filho a mãe guie, e a mãe ao filho,

Pois um sem o outro cai...

Nunca disseste! e agora, morto, apertar

Nos braços teu filhinho!

Deixaste as portas da gaiola aberta,

Voou o passarinho ...

[Vitor Hugo]

domingo, 28 de fevereiro de 2010

SEM UM FILHO TE APAGARÁS NO POENTE

.SEM UM FILHO TE APAGARÁS NO POENTE.
[William Shakespeare]

A luz real ergueu-se a oriente

com a coroa de fogo na cabeça:

e o nosso olhar, vassalo obediente,

ajoelha ante a visão que recomeça.

Enquanto sobe, Sua Majestade,

a colina do céu a passos de oiro,

adoramos-lhe a adulta mocidade

que fulge com as chamas dum tesoiro.

Mas quando o carro fatigado alcança

o cume e se despenha pela tarde,

desviamos os olhos já sem esperança:

no crepúsculo estéril nada arde.

Assim tu, meio dia ainda ardente,

sem um filho te apagarás no poente.


[William Shakespeare]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AMAR QUEM ESTÁ TÃO PRÓXIMO DA MORTE

.AMAR QUEM ESTÁ TÃO PRÓXIMO DA MORTE .
[William Shakespeare]

Esta estação do ano podes vê-la

em mim: folhas caindo ou já caídas;

ramos que o frémito do frio gela;

árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,

o dia que se extingue sobre o poente,

com a noite sem astros a anunciar

o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordinário,

morrendo do que vive: a claridade,

deitado sobre o leito mortuário

que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o teu amor mais forte:

amar quem está tão próximo da morte.

[William Shakespeare]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NÃO TE ARRUÍNES, ALMA, ENRIQUECE

.NÃO TE ARRUÍNES, ALMA, ENRIQUECE.
[William Shakespeare]

Centro da minha terra pecadora,

alma gasta da própria rebeldia,

porque tremes lá dentro se por fora

vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada

arruinada, arrendada a curto prazo?

Herdam de ti os vermes? Na jornada

do corpo te consomes ao acaso?

Não te arruínes, alma, enriquece:

vende as horas de escória e desperdício

e compra a eternidade que mereces,

sem piedade do servo ao teu serviço.

Devora a Morte e o que de nós terá,

que morta a Morte nada morrerá.

[William Shakespeare]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

SE NADA HÁ DE NOVO

.SE NADA HÁ DE NOVO.
[William Shakespeare]

Se nada há de novo e tudo o que há

já dantes era como agora é,

só ilusão a criação será:

criar o já criado para quê?

Que alguém me mostre, sobre um livro antigo

como quinhentas translações astrais,

a tua imagem, na inscrição, no abrigo

do espírito em seus signos iniciais.

Que eu saiba o que diria o velho mundo

deste milagre que é a tua forma;

se te viram melhor, se me confundo,

se as translações seguem a mesma norma.

Mas disto estou seguro: antigos textos

louvaram mais com bem menores pretextos.

[William Shakespeare]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A MINHA AUSÊNCIA DE TI

.A MINHA AUSÊNCIA DE TI.
[William Shakespeare]

Foi tal e qual o inverno a minha ausência

de ti, prazer dum ano fugitivo:

dias nocturnos, gelos, inclemência;

que nudez de dezembro o frio vivo.

E esse tempo de exílio era o do verão;

era a excessiva gravidez do outono

com a volúpia de maio em cada grão:

um seio viúvo, sem senhor nem dono.

Essa posteridade em seu esplendor

uma esperança de órfãos me parecia:

contigo ausente, o verão teu servidor

emudeceu as aves todo o dia.

Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava

e no temor do inverno desmaiava.


[William Shakespeare]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A NOITE NÃO ME DEU NENHUM SOSSEGO

.A NOITE NÃO ME DEU NENHUM SOSSEGO.
[William Shakespeare]


Como voltar feliz ao meu trabalho

se a noite não me deu nenhum sossego?

A noite, o dia, cartas dum baralho

sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,

me torturam, envolvem no seu cerco

de fadiga, de dúbias madrugadas:

e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,

que desfazes as nuvens do seu rosto;

digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.

Mas dia a dia alonga-se a jornada

e cada noite a noite é mais fechada.


[William Shakespeare]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

COMPARAR-TE A UM DIA DE VERÃO?

.COMPARAR-TE A UM DIA DE VERÃO?.
[William Shakespeare]

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

[William Shakespeare]

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