domingo, 28 de fevereiro de 2010

SEM UM FILHO TE APAGARÁS NO POENTE

.SEM UM FILHO TE APAGARÁS NO POENTE.
[William Shakespeare]

A luz real ergueu-se a oriente

com a coroa de fogo na cabeça:

e o nosso olhar, vassalo obediente,

ajoelha ante a visão que recomeça.

Enquanto sobe, Sua Majestade,

a colina do céu a passos de oiro,

adoramos-lhe a adulta mocidade

que fulge com as chamas dum tesoiro.

Mas quando o carro fatigado alcança

o cume e se despenha pela tarde,

desviamos os olhos já sem esperança:

no crepúsculo estéril nada arde.

Assim tu, meio dia ainda ardente,

sem um filho te apagarás no poente.


[William Shakespeare]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

AMAR QUEM ESTÁ TÃO PRÓXIMO DA MORTE

.AMAR QUEM ESTÁ TÃO PRÓXIMO DA MORTE .
[William Shakespeare]

Esta estação do ano podes vê-la

em mim: folhas caindo ou já caídas;

ramos que o frémito do frio gela;

árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,

o dia que se extingue sobre o poente,

com a noite sem astros a anunciar

o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordinário,

morrendo do que vive: a claridade,

deitado sobre o leito mortuário

que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o teu amor mais forte:

amar quem está tão próximo da morte.

[William Shakespeare]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NÃO TE ARRUÍNES, ALMA, ENRIQUECE

.NÃO TE ARRUÍNES, ALMA, ENRIQUECE.
[William Shakespeare]

Centro da minha terra pecadora,

alma gasta da própria rebeldia,

porque tremes lá dentro se por fora

vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada

arruinada, arrendada a curto prazo?

Herdam de ti os vermes? Na jornada

do corpo te consomes ao acaso?

Não te arruínes, alma, enriquece:

vende as horas de escória e desperdício

e compra a eternidade que mereces,

sem piedade do servo ao teu serviço.

Devora a Morte e o que de nós terá,

que morta a Morte nada morrerá.

[William Shakespeare]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

SE NADA HÁ DE NOVO

.SE NADA HÁ DE NOVO.
[William Shakespeare]

Se nada há de novo e tudo o que há

já dantes era como agora é,

só ilusão a criação será:

criar o já criado para quê?

Que alguém me mostre, sobre um livro antigo

como quinhentas translações astrais,

a tua imagem, na inscrição, no abrigo

do espírito em seus signos iniciais.

Que eu saiba o que diria o velho mundo

deste milagre que é a tua forma;

se te viram melhor, se me confundo,

se as translações seguem a mesma norma.

Mas disto estou seguro: antigos textos

louvaram mais com bem menores pretextos.

[William Shakespeare]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A MINHA AUSÊNCIA DE TI

.A MINHA AUSÊNCIA DE TI.
[William Shakespeare]

Foi tal e qual o inverno a minha ausência

de ti, prazer dum ano fugitivo:

dias nocturnos, gelos, inclemência;

que nudez de dezembro o frio vivo.

E esse tempo de exílio era o do verão;

era a excessiva gravidez do outono

com a volúpia de maio em cada grão:

um seio viúvo, sem senhor nem dono.

Essa posteridade em seu esplendor

uma esperança de órfãos me parecia:

contigo ausente, o verão teu servidor

emudeceu as aves todo o dia.

Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava

e no temor do inverno desmaiava.


[William Shakespeare]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A NOITE NÃO ME DEU NENHUM SOSSEGO

.A NOITE NÃO ME DEU NENHUM SOSSEGO.
[William Shakespeare]


Como voltar feliz ao meu trabalho

se a noite não me deu nenhum sossego?

A noite, o dia, cartas dum baralho

sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,

me torturam, envolvem no seu cerco

de fadiga, de dúbias madrugadas:

e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,

que desfazes as nuvens do seu rosto;

digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.

Mas dia a dia alonga-se a jornada

e cada noite a noite é mais fechada.


[William Shakespeare]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

COMPARAR-TE A UM DIA DE VERÃO?

.COMPARAR-TE A UM DIA DE VERÃO?.
[William Shakespeare]

Comparar-te a um dia de verão?

Há mais ternura em ti, ainda assim:

um maio em flor às mãos do furacão,

o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;

outras, desfaz-se a compleição doirada,

perde beleza a beleza; e o que perdeu

vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão

será eterno; sempre crescerás

indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:

Porque o mundo, que vê e que respira,

te verá respirar na minha lira.

[William Shakespeare]

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