quarta-feira, 7 de abril de 2010

MÃE

MÃE
[Mário Quintana]




Mãe... São três letras apenas

As desse nome bendito:

Também o Céu tem três letras...

E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,

Todo o bem que se disse

Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,

Bem sabem os lábios meus

Que és do tamanho do Céu

E apenas menor que Deus!


[Mário Quintana]

terça-feira, 6 de abril de 2010

PARA MEU CORAÇÃO

PARA MEU CORAÇÃO
[Pablo Neruda]



Para meu coração teu peito basta,

para que sejas livre, minhas asas.

De minha boca chegará até o céu

o que era adormecido na tua alma.

Mora em ti a ilusão de cada dia

e chegas como o aljôfar às corolas.

Escavas o horizonte com tua ausência,

eternamente em fuga como as ondas.

Eu disse que cantavas entre vento

como os pinheiros cantam, e os mastros

Tu és como eles alta e taciturna.

Tens a pronta tristeza de uma viagem.

Acolhedora como um caminho antigo,

povoam-te ecos e vozes nostálgicas.

Despertei e por vezes emigram e fogem

pássaros que dormiam em tua alma.


[Pablo Neruda]

segunda-feira, 5 de abril de 2010

OU ISTO OU AQUILO

OU ISTO OU AQUILO
[Cecília Meireles]


Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.


[Cecília Meireles]

domingo, 4 de abril de 2010

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
[Mário Quintana]




Eu sou um homem fechado.

O mundo me tornou egoísta e mau.

E a minha poesia é um vício triste,

Desesperado e solitário

Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,

Com o teu passo leve,

Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender

nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil

Aonde viessem pousar os passarinhos.


[Mário Quintana]

sábado, 3 de abril de 2010

O VENTO NA ILHA

O VENTO NA ILHA
[Pablo Neruda]


Vento é um cavalo:

ouve como ele corre

pelo mar, pelo céu.

Quer me levar: escuta

como ele corre o mundo

para levar-me longe.

Esconde-me em teus braços

por esta noite erma,

enquanto a chuva rompe

contra o mar e a terra

sua boca inumerável.

Escuta como o vento

me chama galopando

para levar-me longe.

Como tua fronte na minha,

tua boca em minha boca,

atados nossos corpos

ao amor que nos queima,

deixa que o vento passe

sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra

coroado de espuma,

que me chame e me busque

galopando na sombra,

enquanto eu, protegido

sob teus grandes olhos,

por esta noite só

descansarei, meu amor.


[Pablo Neruda]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BILHETE

BILHETE
[Mário Quintana]


Se tu me amas,

ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,

deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,

.....tem de ser bem devagarinho,

.....amada,

.....que a vida é breve,

.....e o amor

.....mais breve ainda.

[Mário Quintana]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

CAI CHUVA DO CÉU CINZENTO

CAI CHUVA DO CÉU CINZENTO
[Fernando Pessoa]


Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não.

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração


[Fernando Pessoa]

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